Personagem

INOVADORA NO ENSINO DA MATEMÁTICA:
DA LOUSA PARA AS DOBRADURAS E AS QUADRAS

Professora Eveliyn defende maior diálogo com os alunos para criar empatia

Inovar no ensino da Matemática, esta disciplina que tradicionalmente desperta calafrios na maioria dos alunos, seja no ensino público ou no particular. Esta é a missão que vem sendo desenvolvida por uma educadora de Campinas, interior de São Paulo, e que já participou de duas edições do Programa Minha Escola Cresce, do Instituto Arcor Brasil.

Eveliyn Tiemi Takamori conta que se tornou professora quase que por acaso. “Não queria licenciatura, mas acabei entrando em licenciatura e acabei tomando gosto pelo curso. Já gostava de Matemática e mexia com o fator humano. Aliei então duas coisas que eu gostava, a Matemática e lidar com o ser humano”. A escolha pela educação, afinal, foi por seu potencial transformador, assinala. “Eu enxergo nos jovens a transformação, a possibilidade de transformar o ser humano através da educação”, diz.

E a postura de inovar no ensino da Matemática? “Veio da inquietação”, responde a professora, que se formou no Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP) em 2000. E no IME, conta, “temos uma formação tradicional, a Matemática é vista de forma tradicional, você faz exercício, acabou”.

Mas sua visão mudou quando passou a dar aula em escola pública estadual, relata a educadora. “Quando comecei a lidar com a escola estadual, percebi que se eu tratar desse modo com meu aluno ele não vai me escutar, não há diálogo. Comecei a ficar preocupada com isso porque o aluno não me escutava, você dava matéria, ia para a lousa, ele escutava e fazia de conta que copiava, mas não aprendia. Como quebrar essa barreira? Com promover o diálogo entre o professor de matemática e seu aluno? Essa inquietação começou a provocar uma certa coceira. Como mexer com esse aluno, como provocar nele o sentimento de querer aprender matemática, e não só copiar a matéria”, diz a professora Eveliyn.

A possibilidade de aproximação, de abertura de diálogo com os alunos apareceu em função do Projeto Aprendendo Dobraduras, Fazendo Amigos, implementado na Escola Estadual “Jamil Gadia”, localizada no Parque da Figueira II, em Campinas (SP), como parte da Terceira Edição do Programa Minha Escola Cresce, do Instituto Arcor Brasil. Foi em 2006, e a professora Eveliyn entende que o trabalho com as dobraduras viabilizou a abertura de diálogo com seus alunos.

Mas eram ações ainda dentro da sala de aula, nota a professora. Em 2009, nova oportunidade, agora com o Projeto “Vencer em Matemática”, como parte da Sexta Edição do Programa Minha Escola Cresce. O propósito do projeto é estimular o ensino e aprendizagem em Matemática, por meio de jogos e atividades físicas. Jogos tradicionais, como queimada ou amarelinha, mas também esportes incomuns no repertório da cultura brasileira, como futebol americano, badminton ou baseball.

Afirma a educadora: “Com o Vencer eu saí da sala, então o desafio era como trabalhar a matemática sem a sala de aula, o livro didático, a lousa e o giz? Quando você está em um espaço que não é conhecido, que não é uma zona de conforto para você, o diálogo está aberto, e o aluno enxerga melhor, enxerga em você um mediador, não como um professor. Não é o cara que está ali, totalitário, único detentor do conhecimento. Você se torna um mediador, um companheiro, um parceiro dele”, nota.

Eveliyn entende que as inovações na forma de ensinar Matemática estão surtindo efeito. “Posso perceber mudanças no tratamento, pois o professor de Matemática tem o hábito de ser o cara mais racional na sala de aula. Ele passa a matéria e acabou, nem pergunta o nome do aluno. Com esse jogo, com esse projeto, os alunos me chamam pelo primeiro nome, querem brincar, têm um relacionamento interpessoal melhor comigo. E se eles conseguem me enxergar como ser humano, eles conseguem enxergar a Matemática um pouco melhor, a Matemática é uma extensão de mim. Pois se eles começam a odiar um professor por conseqüência odeiam a Matemática”.

Dessa abertura para o diálogo, desse relacionamento pessoal mais próximo, nasce a empatia. “O fator empatia é muito importante, porque o professor lida com o ser humano. Se você não provoca empatia, ele sequer vai te escutar, você pode berrar, gritar, que ele não te escuta. Nesses jogos o engraçado não há grito berro de nenhuma das partes. Você diz uma palavra e eles já sabem o que você está pedindo, que é importante para eles escutarem. Então é a forma de provocar o diálogo, tem que ter o diálogo entre as duas partes. Se existe a violência em sala de aula, o professor fica agressivo, o aluno mais ainda e nenhum dos dois escuta. Então não tem diálogo. Promover o diálogo é você conhecer o outro, nisso eles me reconhecem como pessoa e não como a professora, que pega no pé da gente, dá nota baixa”, destaca a professora.

Para ilustrar a aproximação com os alunos, a professora Eveliyn mostra a sua camiseta, com o nome de todos os jovens autografado atrás. E na camiseta a professora é denominada de coach. “Sou a técnica, não mais a professora. O que é interessante porque o técnico tem valor mais agregado. Está orientando, está com eles, joga com eles”, descreve a professora Eveliyn, que se diverte com um episódio que presenciou: a diretora da escola a confundiu com uma aluna durante um jogo cooperativo, tamanha a interação com os estudantes.

Então, o que é ser educador? A professora Eveliyn responde, enquanto já imagina quais serão os próximos passos de sua vocação para a inovação: “Ser educador é conseguir acompanhar o seu aluno, enxergá-lo não só como aluno, mas como ser humano. Ele não é um número, um registro, ele tem nome, uma história e traz essa história para sala de aula. Isso que o torna diferente, daí ser fundamental o relacionamento entre professor e aluno”, conclui.

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